18 de março de 2008

Experimentação e construção de conhecimentos

Esse texto, foi uma parte do meu relatório de estágio quando me formei em Licenciatura em Química em 2000. A linguagem e a abordagem são bem simples, mas achei legal colocar aqui.

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Experimentação e construção de conhecimentos


Alcione Torres Ribeiro



O sistema educacional como um todo passa por graves problemas. Muitos desses problemas estão relacionados com as práticas educativas. Estas, muitas vezes, conseguem despertar o interesse dos alunos nos primeiros anos de atividade escolar, já que buscam ser motivadoras e de importante papel no desenvolvimento psicológico do indivíduo.


A partir da idade de dez anos, aproximadamente, o aluno possui uma maior capacidade cognitiva. Nesse momento, os conteúdos se tornam mais acadêmicos e o interesse pela escola diminui em decorrência dessa formalização do ensino e do distanciamento dos conteúdos da vida cotidiana.

... é como se o sistema educativo estivesse desperdiçando a melhoria que se produziu na mente dos alunos e, em vez de obter melhor partido, estabelecesse as condições para produzir o contrário. (CARRETERO, 1997, p. 8)

Por esse motivo, há uma grande preocupação no sentido de se fazer uma reforma no sistema educacional que devolva ao aluno o interesse pela escola e pela produção de conhecimento. Para isso, é preciso lançar mão de alternativas eficazes que ultrapassem ao estilo tradicional e tragam vida nova ao processo ensino-aprendizagem. Carretero cita questões indispensáveis a essa reforma:


  • Partir do nível de desenvolvimento do aluno.

  • Assegurar a construção de aprendizagens significativas.

  • Possibilitar que os alunos realizem aprendizagens significativas por si sós.

  • Procurar que os alunos modifiquem seus esquemas de conhecimento.

  • Estabelecer relações ricas entre o novo conhecimento e os esquemas de conhecimento já existentes. (CARRETERO, 1997, p. 9)

Essas alternativas têm base nas idéias construtivistas.


As idéias que sustentam um indivíduo não são produtos do meio ou simples resultados de suas disposições internas, mas uma interação entre esses dois fatores para a construção diária de conhecimentos. Segundo Carretero, a posição construtivista é a de que "o conhecimento não é uma cópia da realidade, mas, sim, uma construção do ser humano". (1997, p. 10)


Tal construção é realizada através dos esquemas que o ser humano já possui, ou seja, com o que já construiu em sua relação com o meio em que vive.

Um esquema é um padrão de comportamento ou uma ação que se desenvolve com uma certa organização e que consiste num modo de abordar a realidade e conhecê-la. (GOULART, 1998, p.16)

Os esquemas podem ser muito simples ou muito complexos; podem ser muito gerais ou muito especializados. Podem ser inadequados ou incorretos a respeito de noções científicas e, nesse caso, é preciso modificar os esquemas.


Para Piaget, o conhecimento não é uma qualidade estática e sim uma relação dinâmica. A forma de um indivíduo abordar a realidade é sempre uma forma construtivista e, portanto tem a ver com a sua disposição, com o seu conhecimento anterior e com as características do objeto. Então, a aprendizagem se dá através da construção de conceitos pela interação entre esquemas e respostas a respeito do objeto em estudo.


Nesse momento, a aquisição de conhecimentos através da experimentação se torna importante para o desenvolvimento cognitivo do indivíduo.


Experimentação no ensino de ciências

Segundo Goulart, há mais de cem anos já se recomendava o uso do laboratório no ensino de ciências. A experiência é um recurso capaz de assegurar uma transmissão eficaz dos conhecimentos escolares, porém a falta de preparo dos professores faz com que essa não seja uma prática constante nas escolas e o ensino de ciências acaba se tornando algo distante da realidade e do cotidiano do aluno.


Os cursos de formação de professores falham no momento em que consideram a atividade experimental como um mero recurso pedagógico usado para facilitar a aprendizagem de conteúdos previamente selecionados e expostos pelo professor. Assim, esquece-se que estes conteúdos estão na vida dos alunos a todo momento e se pode experimentar sempre e avaliar até que ponto foram utilizados esquemas válidos para a construção dos conceitos.


A experimentação pode-se dar de três maneiras:


1) A experiência é realizada pelo professor como forma de demonstração ou pelos próprios alunos, através de um roteiro detalhado elaborado pelo professor;
2) A experiência é realizada antes da explanação a fim de introduzir e explorar o que vai ser trabalhado nas aulas teóricas ou depois para a verificação do que foi exposto;
3) A experiência pode ter um caráter indutivo e, nesse caso, o aluno pode controlar variáveis e descobrir ou redescobrir relações funcionais entre elas. Pode também ter um caráter dedutivo quando eles têm a oportunidade de testar o que é dito na teoria.


O ensino de Química segue o ritmo da aprendizagem teórica, sem ligação com o cotidiano. Por isso, muitas vezes se torna difícil a compreensão dos conteúdos por parte do aluno e a disciplina acaba sendo vista como um amontoado de teorias sem sentido prático. A experimentação é a oportunidade que o sujeito tem de extrair de sua ação as conseqüências que lhe são próprias e aprender com os erros tanto quanto com os acertos.


Referências


GOULART, Iris Barbosa. A educação na perspectiva construtivista. Petrópolis: Editora Vozes, 1995.

CARRETERO, Mario. Construtivismo e Educação. Porto Alegre: Artes Médicas, 1997.

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