18 de abril de 2009

Limpeza sem química? Não entendi essa matéria!

Já vi muitas pessoas falarem absurdos e já vi anúncios mais absurdos ainda, como:
  • Remédio sem química
  • Pão sem química
  • Remédio natural não faz mal
  • Alisamento de cabelo sem química

E muito mais!

Mas o que eu nunca tinha visto era esse tipo de absurdo escrito numa revista como a Veja. Vou transcrever a matéria abaixo e vocês podem ver a original aqui.

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Limpeza
De volta ao básico


Anna Paula Buchalla
abuchalla@abril.com.br

Produtos comuns na limpeza da casa no passado, vinagre, bicarbonato de sódio, óleo e limão tiveram seu uso com essa finalidade esquecido. Este é o momento ideal para recuperá-los. Além de baratos, eles livram os ambientes da química.

Detergentes, solventes, ceras e lustradores contêm em sua fórmula compostos orgânicos voláteis que poluem o ar e podem causar irritação nas vias respiratórias, fadiga e falta de ar. Sobretudo nesta época do ano, quando as alergias respiratórias atacam com tudo, evitar seu uso é algo a ser considerado. "Muitos produtos de limpeza podem ter efeito irritante", alerta o médico Fábio Morato Castro, do serviço de alergia e imunologia do Hospital das Clínicas de São Paulo. Especialistas consultados por VEJA avaliaram os benefícios da volta aos limpadores naturais.


ÓLEO DE COZINHA


A opinião dos especialistas: os óleos vegetais, como os de oliva, girassol e linhaça, servem para dar brilho
Produtos de limpeza que substitui: lustradores de móveis
Químicas eliminadas na substituição: formaldeído e solvente
Dicas de como usá-lo:
• Para manter janelas e esquadrias de alumínio brilhando – é só limpá-las uma vez por mês com uma mistura de óleo de cozinha e álcool em partes iguais. Em seguida passe um tecido macio ou flanela com óleo e faça o polimento
• Para limpar e lustrar móveis de madeira – Junte duas xícaras de óleo ao suco de um limão. Use um tecido suave para aplicar a mistura

Economia em dinheiro com a troca de produtos*: 65%

SUCO DE LIMÃO

A opinião dos especialistas: a acidez do limão remove a sujeira e as manchas de ferrugem. Misturado ao sal, forma uma pasta especialmente potente na limpeza doméstica
Produtos de limpeza que substitui: água sanitária e removedores de manchas e ferrugem
Químicas eliminadas na substituição: cloro e solvente
Dicas de como usá-lo:
• Para remover a gordura das louças – pode-se adicionar um quarto de xícara de chá de limão direto no frasco de detergente ou diluí-lo em água e aplicar a mistura sobre o material a ser limpo
• Para tirar a ferrugem de objetos como talheres e grelhas – esfregue suco de limão com uma palha de aço
• Para remover manchas de suco e molho de tomate em tecidos – esfregue a mancha com limão, enxágue e deixe secar. Se ainda houver vestígios, molhe a peça em uma solução de um quarto de xícara de água morna, meia colher de chá de detergente e uma colher de sopa de vinagre branco por quinze minutos. Enxágue e lave
• Para alvejar roupas amareladas – Coloque-as de molho em água com pedaços de limão. Elas ficarão cheirosas e sem aparência desbotada

Economia em dinheiro com a troca de produtos: 67%

VINAGRE

A opinião dos especialistas: de todos os limpadores naturais, o vinagre branco é o campeão da limpeza – graças a sua acidez, combate de mofo a gordura e odores fortes
Produtos de limpeza que substitui: detergentes, amaciantes e limpadores multiuso
Químicas eliminadas na substituição: cloro, amoníaco, formaldeído e soda cáustica
Dicas de como usá-lo:
• Para limpar tapetes e carpetes – a cada litro de água, acrescente duas colheres de sopa de vinagre
• Para eliminar cheiro de mofo em armários – coloque uma bacia ou assadeira com vinagre branco puro dentro do móvel vazio. Deixe pernoitar
• Para retirar o cheiro de urina e fezes deixado pelos bichos de estimação – aplique uma solução de dois terços de água morna e um terço de vinagre branco. Depois passe um pouco de vinagre puro sobre o local e deixe secar naturalmente
• Para limpar o fogão depois de uma fritura – deixe um pouco de vinagre sobre a gordura quinze minutos antes de começar a limpeza
Para remover o mofo dos azulejos – Aplique uma boa quantidade de vinagre branco puro com uma escova de dentes velha. Deixe-o agir por duas horas e, depois, lave a superfície com água e sabão
• Para a limpeza do vaso – Despeje o vinagre e deixe-o agir por trinta minutos, depois borrife bicarbonato de sódio em uma escova apropriada e esfregue as áreas manchadas
• Para limpar janelas e espelhos – Dilua três colheres de vinagre em 10 litros de água quente. Se o vidro estiver muito sujo, limpe-o primeiro com água e sabão

Economia em dinheiro com a troca de produtos: 32%

BICARBONATO DE SÓDIO

A opinião dos especialistas: ótima opção para absorver odores e para a limpeza da cozinha. É importante usar luvas ao manejá-lo
Produtos de limpeza que substitui: água sanitária e detergente
Químicas eliminadas na substituição: cloro e formaldeído
Dicas de como usá-lo:
• Para limpar o forno – passe com um pano uma solução de água quente com bicarbonato de sódio
• Para desentupir ralos com gordura – Use uma xícara de sal, uma xícara de bicarbonato de sódio e uma chaleira de água fervendo
• Para a limpeza interna da geladeira – água misturada com bicarbonato de sódio e sabão é uma boa solução
• Para limpar recipientes plásticos manchados – esfregue uma pasta de suco de limão e bicarbonato de sódio
• Para limpar pias de aço inoxidável – basta esfregar a superfície com bicarbonato de sódio e depois enxaguar
• Para soltar alimentos incrustados em panelas ou assadeiras – misture água quente e bicarbonato de sódio. Quando o alimento se soltar, esfregue com uma esponja

Economia em dinheiro com a troca de produtos: 63%

* Economia média na comparação com produtos industrializados


Fotos Istockphotos, Randy Faris/CorbisLatinstock,
Sheila Oliveira, Envision/Corbis/Latinstock, Marco Pinto e Junior

Edu Lopes
ÁGUA E VINAGRE
Na casa da apresentadora
Luisa Mell não entram produtos
químicos: cuidados com a saúde
e preocupação com o ambiente

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Vamos aos absurdos, então:

Segundo o Dicionário Aurélio,

química

[F. subst. do adj. químico; fr. chimique.]

Substantivo feminino.

1.Ciência em que se estuda a estrutura das substâncias, correlacionando-a com as propriedades macroscópicas, e se investigam as transformações dessas substâncias.

2.Tratado ou compêndio dessa ciência.

3.Exemplar de um desses tratados ou compêndios.

4.Conjunto de conhecimentos relativos a esta ciência, ou que têm implicações com ela, ministrados nas respectivas faculdades.

Não é de hoje que vemos como a palavra QUÍMICA é usada de forma a designar tudo aquilo que é industrializado e faz mal. Sim, pois o que é industrializado e faz bem não é QUÍMICO! Querem ver uma prova disso?

Vejam na matéria acima que é mostra a troca de "produtos químicos" por "produtos naturais". Percebam que existe uma observação em * que diz que os valores da economia feita são comparados com os valores de PRODUTOS INDUSTRIALIZADOS. Espere aí! Não entendi! Quer dizer que o vinagre e o bicarbonato de sódio utilizados para a concepção da matéria da revista foram produzidos pela jornalista (ou algum encarregado)? Tenho certeza que não! E a dica de misturar o limão no detergente para tirar a gordura da louça? Quem fez esse detergente? A jornalista? E o detergente virou "não química" agora? Ah, tá! É que o detergente é bonzinho, então não deve "ter química"!

Outra coisa: quero ver se a jornalista em questão e a pessoa que a acessorou na matéria (se é que alguém o fez!) passa óleo de soja nos móveis de sua casa! Óleo de soja que, por sinal, deve ser extraído pela própria pessoa que irá utilizar, em seu laboratório particular (quem não tem um em casa, não é mesmo?). E óleo de soja pode ser utilizado, pois é natural, "sem química" e não agride o ambiente! Se não tem "química" não é mau! Pronto! Resolvido!

Agora, vem a pergunta chave: supondo que a matéria seja proveitosa, no sentido da economia doméstica, como essa jornalista sabe que essas trocas são possíveis, como ela sabe que certa substância é mais agressiva do que outra, traz mais ou menos benefícios ao ambiente e ao ser humano? A CIÊNCIA QUÍMICA! É disso que a Química se ocupa, de entender a matéria, de aprender a transformá-la para este ou aquele uso. Perceberam o absurdo de uma pessoa que não tem ideia do que está falando?

Citam uma apresentadora na matéria dizendo que ela não usa produtos químicos em casa. Se eu fosse a apresentadora processaria a revista. Ou, se eu fosse ela e tivesse dito realmente isso, procuraria um remédio para apagar a memória (já existe esse remédio!) e esqueceria esse episódio lamentável! Ou vocês vão acreditar que ela e todas as outras pessoas do mundo, - inclusive aquelas que se dizem naturistas - não se beneficiam com o que a Química produz? Maquiagens, medicamentos, tintas, polímeros, combustíveis, alimentos, bebidas, etc. Quem é que vive "livre de química" (como diz a matéria no seu primeiro parágrafo) hoje em dia e desde que o homem passou a manipular a matéria para diversos usos?

Mesmo antes de existir a ciência Química, as pessoas já manipulavam a matéria, já se utilizavam de conhecimentos sobre reações químicas no seu dia-a-dia. Qual foi um dos principais motivos que fizeram com que o homem passasse de nômade a sedentário? Aprenderam a conservar os alimentos.

A sua avó, que usava sempre chás para curar doenças, sabe muito bem quanto se deve usar por dose. Ela pode não saber o que é concentração molar, dosagem, etc., mas sabe muito bem que, se tomar além da medida, o chá fará mal. Essa ideia de que tudo o que é natural é bom precisa ser apagada da cabeça das pessoas. Tudo depende da dose. Algo muito bom pode se tornar muito ruim se for utilizado em excesso. Não é Química que faz ser assim, mas é ela que te mostra que é assim!

Isso é que é Química. Química não é algo nocivo, não é algo "do mal" como muitas pessoas teimam em difundir. Nossos alunos chegam impregnados dessa visão na sala de aula e cabe ao professor mostrar o que é certo.

E sobre a matéria da revista, acho que os jornalistas que resolvem escrever sobre Ciência deveriam aprender um pouco a respeito ou, pelo menos, procurar acessoria de pessoas que saibam o que estão dizendo, antes e depois de produzirem suas matérias.

Espero que os professores de Química utilizem essa matéria em suas salas de aula no desenvolvimento do pensamento crítico do aluno.

Esse texto faz parte também do blog Roda de Ciência

25 comentários:

Anônimo disse...

Ficou excelente!!!!
Está na hora das pessoas começarem a perceber que a química vai muito além de simplesmente coisas que prejudicam a saúde das pessoas

EAD disse...

Nossa, quanta ignorãncia. Você deveria mandar esse texto p/a revista. A veja já era hámuito tempo. Não consigo ler. Acho que vc tem os mesmos problemas que os professores de potuguês: a gramática. Na verdade, é possivel estudar a gramática que toda língua tem com o objetivo de descrev^-la e não de impor. aí que ensinam uma gramática atrsada, que os alunos não entendem, pq é uma descrição muito antiga.

Henrique Gil disse...

Infelizmente meios de comunicação considerados como "sérios" por muitas pessoas acabam contribuindo para a distorção de diversas informações.
A Química já não é uma matéria muito bem vinda na maioria das escolas, e a culpa muitas vezes é do conceito errôneo transmitido em revistas, jornais, internet, enfim, nos meios de comunicação. Contudo, infelizmente até mesmo os profissionais da área e livros didáticos contribuem para esta distorção quanto à repulsa da matéria.
Não podemos permitir que tamanha irresponsabilidade e ignorância se propague!

Alcione Torres disse...

Você tem toda a razão. Alguns livros didáticos são lastimáveis. É por isso que o professor precisa escolher o livro com muito carinho, muito cuidado, observando se a visão do autor sobre a Química não é equivocada, não irá colocar "minhocas" nas cabeças dos alunos e até prejudicar o ensino em vez de auxiliá-lo.

Rafael disse...

vOCÊ TEM TODA A RAZÃO

aLGUNS LIVROS SÃO LASTIMAVEIS MESMO

NICE.

palavras ao vento disse...

muito interresante...podemos ter otras opções...para limpeza...e que não agride a natureza...

Lemon Blog disse...

Veja fala muita besteira. Parei de considerar essa revista quando ela sugeriu o modelo de meritocracia para o ensino, é ridiculo.

Parabéns pelo blog e pelo post.

http://sasdelli.blogspot.com/

Alcione Torres disse...

Palavras ao Vento

Acho que você nem se deu ao trabalho de ler o post e comentou qualquer coisa...
Que feio!

Alcione Torres disse...

Lemon

Eu despreso essa revista. Já teve gente que me sensurou por eu não ler a Veja, mas acho que eu deveria censurar quem lê, isso sim! rsrssrs
A não ser que leia e critique as aberrações lá contidas!

Blog Oficial Luis Fabiano disse...

Nossa!
Ótimo blog!

Khaos disse...

hahaha a VEJA?! Tá caindo de rendimento, ein ^^

Ricardo Thadeu disse...

A Veja já fez coisas muito piores. Mudou a nacionalidade de alguns artistas, matou outros, adulterou dados...

É uma boa que os professores auxiliem os alunos a peneirarem informações. Fala-se muito que a internet não é uma fonte muito segura, mas há veículos impressos ainda piores.


¡adiós!

Lucas Sepúlveda disse...

Outro fora da VEJA. Já sou bem decepcionado com a VEJA por causa de algumas reportagens políticas errôneas e com opinião pessoal. Mas fazer o que, né?

Ricardo Thadeu disse...

Olha só, eu posso fazer parceria com troca de links, serve? É que meu blog tá abarrotado de banners.

Aguardo retorno.=]

Fábio Flora disse...

Sua observação sobre o uso inadequado da palavra "química" é bastante pertinente. Nós, seres humanos, somos ou não somos feitos de uma química? Será que fazemos mal por isso? Boas questões para pensar. Abraços e sucesso com o blog!

Bruno Battousai disse...

Legal

Ana de Medeiros Arnt disse...

Ótimo post Alcione!!! Sempre me espanto também com a noção do que é químico ou não (algo como tomar remédio - que é química - e tomar chá - que é "natural" e portanto não faz mal...). Essa noção do natural sem química me remete à idéia de que as pessoas não sabem que são compostas por moléculas (como todas as coisas).

Adorei a discussão... Vou indicar para meus alunos darem uma olhada também!
bj

Caroline Mendes disse...

É, às vezes as pessoas esquecem que a química está presente em todos os elementos, inclusive nos "naturais" ou "sem química"

Parabéns pela matéria, muito interessante!! =]

http://cantodoescritor.blogspot.com/

João Carlos disse...

Acho que "matei a charada"! Além de mal escrito, provavelmente esse texto é uma (má) tradução.

A palavra "química" foi usada como se usa "chemical" em inglês (tradução correta: "substância química") – com a pressuposição de que é uma substância química artificialmente inserida em um composto (para uma substância química natural, se usa "substance").

Tradutore, tradittore...

Alcione Torres disse...

Pode até ter sido traduzido mesmo, mas esse erro no uso da palavra química já é tão comum, tão corriqueiro, que quase ninguém se preocupa. E a jornalista teve menos preocupação ainda, né?

Moi disse...

Excelente artigo! Veja, essa eterna fanfarrona.

Tania Montandon disse...

Ótimas informações, bem úteis, valeu pela pesquisa e divulgação!
beijo

thazo33 disse...

Não é de hoje que a veja publica materias ignorantes assim....!

Cara, eu odeio essa revista! Puta sensacionalismo!

Até hoje não conseguir ler uma matéria completa da veja! É sensacionalismo d++++!


Dá pra ficar informado em outras fontes!


Seus comentarios sobre a materia tão perfeitos!

Vlw!

Alcione Torres disse...

Muito obrigada.

Davidson Lima disse...

Alcione, estou gostando muito de suas publicações, tem verdades sim, só não concordo no "esculacho" à Veja. Ela tem seus defeitos, contudo estes não podem ser meios generalizados de condenação a esta publicação que, SIM, oferece informações interessantes, principalmente pra quem está ligado em novidades.

De qualquer forma, parabéns pra você! Na medida do possível, dou uma passada aqui. Ahh, já estou divulgando esta matéria no Y! Respostas hehe

Fique na paz do Senhor.

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