15 de março de 2009

Adolescente X professor: quando a arte imita a vida

O título original desta matéria é: "Adolescente X professor: quando a vida imita a arte". Mas acho que, na realidade, é o contrário. O que estamos vendo na TV é o retrato fiel do que acontece nas escolas brasileiras. Não é de hoje que agressões e desrespeito vem acontecendo nas escolas, com a conivência dos pais e dos donos de escolas que visam somente o lucro. Por isso, a frase "o aluno tem sempre razão", usada neste texto, faz tanto sentido: os alunos são os clientes e o cliente tem sempre razão.

A repressão a esse tipo de comportamento dos adolescentes precisa ser feita já e tudo começa com a educação doméstica. Se eles não aprendem a respeitar pais, familiares, vizinhos e amigos, como respeitarão os professores? Como respeitarão os serventes da escola? Como respeitarão os colegas?

A escola também precisa fazer sua parte como instituição responsável por educar. Por muitos anos vimos a total abertura da escola para todos os caprichos dos alunos, sob a falsa ideia de que tudo traumatiza, todo tipo de exigência pode se transformar em algo nocivo que marcará a vida daquele jovem para sempre. Excessos foram cometidos em nome desta "psicologia" e agora os professores é que sofrem as consequências.

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Por Carla Nascimento

Na novela das oito, da Rede Globo, Zeca, um adolescente mimado pelos pais, atrapalha a aula e, ao ser repreendido pelo professor, lança o estojo de lápis em direção ao educador. Os pais acham que ele está certo e ainda reclamam que o filho é perseguido na escola. Ficção? Não necessariamente. A cena de novela, longe de ser um exagero, é uma realidade em muitas salas de aula.

Mariana - nome fictício - viu na TV a situação que ela viveu: "Vi um aluno namorando uma colega na sala. Chamei a atenção, e ele arremessou um estojo na minha direção", conta. Como ela, outros professores concordam em contar suas histórias. Todos preferem se proteger no anonimato, e a maioria conta ter ouvido pelo menos uma vez dos alunos a frase: "Eu pago seu salário". Sinal de que as diferenças sociais entre educadores e estudantes da rede particular se tornaram o estopim para o desrespeito.

"Infelizmente, acaba-se criando uma mentalidade em que o professor é desvalorizado e, muitas vezes, visto como um serviçal. Acabam ocorrendo casos como aqueles que a gente está presenciando pela TV, na novela Caminho das Índias. Posso atestar isso por experiência. O que a Glória Perez está escrevendo não é fruto da imaginação", comenta João Luís de Almeida Machado, mestre em Educação e editor do Portal Planeta Educação.

Iniciativas agressivas parecem atingir a minoria dos alunos, mas essas ações isoladas e cada vez mais frequentes têm sido o suficiente para tirar o sono de muitos professores. Em alguns casos, a violência vem acompanhada de um agravante: a conivência dos pais.

João Luís não tem dúvidas: o comportamento é reflexo da sociedade. "Nós passamos por um processo de liberalização dos costumes, principalmente, depois da abertura política que o país viveu nos anos 80, e parece que os pais relaxaram um pouco além da conta. As famílias abriram muitas brechas, muitas oportunidades para que seus filhos vivessem com ampla e total liberdade", avalia.

Fórum: E você, professor: o que gostaria de dizer para seus alunos?

O estudioso acredita que cabe ao estabelecimento de ensino combater essa realidade. "A escola tem que ir um pouco na contramão da sociedade: não existe jeitinho, tem que ser firme. Até porque é o espaço onde estamos colaborando com a formação das futuras gerações, e se espera que a escola dê parâmetros, dê caminhos. Se ela for muito branda e abrir muitas brechas o que vai acontecer é que esses casos e circunstâncias infelizes vão se repetir."


Futebol une professores e alunos

Nada melhor para aliviar as tensões em sala de aula do que uma reunião em torno da paixão nacional. Por isso, uma vez por semana, alunos e professores do Colégio Salesiano se enfrentam no campo de futebol. "É uma relação mais próxima. O aluno se sente à vontade ao jogar bola com os professores. Mas temos que tomar cuidado, porque se os professores perdem os alunos ficam com gozação a semana inteira", brinca o professor de História e Filosofia Marcelo Vilela. Mas, segundo ele, em campo também há regras. É proibido falar palavrão, por exemplo. Ulisses de Santiago Carvalho, professor de Inglês, é outro que defende o momento de confraternização. "O relacionamento com os alunos muda muito depois do contato em campo. É saudável. Além disso, o futebol é como a vida: tem regras e objetivos definidos", diz.


Para muitos, o aluno tem sempre razão

Entre uma lição e outra, muitos professores aprenderam do jeito mais difícil que com estudante não se discute. "Na escola particular o aluno está sempre certo. É um cliente", comenta um professor que atua nas redes particular e estadual de ensino.

Outra educadora fala que dificilmente um estudante é expulso da escola por mau comportamento, mas com o professor é diferente. "Algumas escolas fazem enquetes entre grupos de alunos sobre os professores. Em algumas, isso causa até demissões", afirma.

O diretor F. admite que é difícil aplicar a penalidade máxima, independente da infração. "Toda escola tem um manual de convivência, com punições previstas. Agora, chegar ao extremo de expulsar o aluno é mais difícil. Até porque a escola tem que respeitar as regras do Conselho Tutelar, do Estatuto da Criança e do Adolescente. Conheço um caso de um menino que foi expulso da escola, a família entrou na Justiça, e o colégio foi obrigado a aceitá-lo de volta. Mas ele já estava em outra escola e bem adaptado. Chegou a passar no vestibular", diz.

Mas para o Sindicato das Escolas Particulares (Sinepe) não há motivos para preocupação. "É natural que a escola exija o comportamento (do aluno) conforme seu estatuto. Dentro de uma sociedade, conflitos vão existir, sem dúvida nenhuma. Aí também entra a habilidade do professor para fazer as devidas correções de maneira educativa. A escola tem que fazer o trato de maneira responsável. Corrigir, orientar e, se necessário, promover penalizações conforme seu regimento", comenta o presidente do sindicato, Antônio Eugênio Cunha.


O que eles diriam aos pais

A revista Seleções ouviu 672 professores em uma pesquisa online, em janeiro deste ano. Confira abaixo o que alguns educadores diriam às famílias de seus alunos

71% "Ajudar seu filho com a lição de casa não significa deixá-lo copiar tudo da internet"

51% "Quando eu era criança, se eu fosse mal nos estudos, meus pais culpavam a mim ? não aos professores. O seu filho também é responsável por suas notas nas provas e desempenho em sala de aula"

50% "Não acredito que você converse com seu filho. Apenas 15 minutos por dia de conversa fariam toda a diferença"

43% "Você faz trabalhos de casa maravilhosos, mas é ao seu filho que eu estou tentando ensinar a matéria"

33% "Crianças precisam se distrair depois do colégio. Tudo bem se ele quiser assistir um pouco à TV ou jogar videogame"

32% "Você não está sendo realista quanto às verdadeiras habilidades de seu filho"

30% "Por que eu deveria abrir mão do meu tempo livre para uma reunião de pais quando você mesmo não tem interesse em participar?"

16% "Seu filho é tão bagunceiro! Você não deveria esperar que eu conseguisse educá-lo"

15% "Por favor, certifique-se de que seu filho toma banho antes de ir à escola"


Outras observações importantes:

"Trate seu filho como gente, não como uma máquina que precisa ser alimentada com presentes"

"O professor é fundamental na formação intelectual, mas são os pais que têm o dever de educar"

"Participe mais e faça seu filho ser mais responsável. Isso também é uma demonstração de amor"

Tensão na aula

"Já aconteceu de um aluno levantar da cadeira na hora errada, eu chamar a atenção, e ele reagir de forma violenta. Ele chutou a cadeira, jogou coisas para o alto, colocou o dedo no meu rosto e ameaçou me processar. Ele nem levou a suspensão que merecia. O problema é que a família não acompanha o aluno e quer cobrar. Esse senso de paternalismo afeta o desenvolvimento do aluno e o trabalho do professor"

"Os problemas são bem pontuais e variam de escola para escola. Geralmente, a agressividade é presente em um perfil de aluno que não tem identidade com o colégio, que sempre muda de instituição, que tem uma família desestruturada e pais que trabalham muito"

"Penso que a tendência nos próximos anos, infelizmente, é a piora. Os alunos perderam o senso ético. Pai e mãe estão cada dia mais ausentes e pensam que apoiar incondicionalmente os filhos é uma forma de dar carinho. Também tem aquela coisa do 'estou pagando'"

"Dificilmente um professor com pelo menos três anos de profissão nunca ouviu uma resposta atravessada. Se batemos de frente com o aluno, ele leva para casa uma versão distorcida. E, hoje, tudo é motivo para o pai processar a escola. O ideal é, em uma aula de 50 minutos, dizer 'bom dia', 'boa tarde', passar o conteúdoe ir embora. Falar qualquer coisa a mais que isso é complicado"

"Houve uma banalização do respeito ao professor. O 'ter' se tornou mais importante do que o 'ser'. Já tive colegas que ouviram o aluno dizer: ?meu pai está pagando, por isso não preciso fazer a tarefa?. Além disso, o pai que não está presente na escola delega muita responsabilidade ao professor. Quando é chamado à instituição, por algum motivo, acha que o papel de passar valores também é da escola"

"Acontecem coisas do tipo: o aluno joga o MP3 no chão, quebra e depois fala que foi o professor"

Professores de ensino fundamental e médio da rede particular de ensino, que preferiram não ser identificados.

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Matéria original.

Um comentário:

Francisco Amado disse...

Infelizmente o quadro geral é de decadência.
Onde todos andam de rastros ninguém se atreve a andar de pé.
Entretanto, como fez o Indra da novela, os professores deveriam colocar na rede o comportamento dos alunos.
Ou pelo menos enviar para os pais.

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